Chamada para servir

A Mulher, o Boi e o Burro

Com o devido respeito, Mário Soares por vezes fala do que não sabe. Em colóquio recentemente realizado em Lisboa, e para demonstrar a “pouca estima que as religiões têm pela mulher”, recitou um texto bíblico: “Não cobiçarás a mulher do próximo…” e, depois de uma pausa, continuou “…nem o escravo, o boi, o burro, nem nada que lhe pertença”. Para Mário Soares, presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, este mandamento sagrado demonstra a “posição de inferioridade” da mulher no mundo da religião, que a iguala ao “boi e ao burro”.

Mário Soares mete os pés pelas mãos em duas ou três coisas essenciais.

Antes de mais nada, a “posição de inferioridade” da mulher a que alude não advém especificamente da religião mas do mundo, da organização social, isto é, da estrutura patriarcal vigente à época.

Em segundo lugar, o “boi e o burro” naqueles tempos constituíam a riqueza de um homem, por representarem uma garantia de sobrevivência, não tendo, nem de perto nem de longe, a irrelevância que terão hoje nas sociedades modernas e urbanas, e muito menos qualquer conotação negativa, antes pelo contrário. Conviria lembrar, por exemplo, que para os egípcios o boi Ápis era uma divindade.

Em terceiro lugar, não existe no texto bíblico citado qualquer tipo de comparação entre a mulher, o boi e o burro. Tal interpretação é abusiva.

Qual é o texto em questão? Integra o Pentateuco, e pode ler-se no livro de Deuteronómio (5:21), enquadrado nos chamados Dez Mandamentos, que Deus deu a Israel pela mão de Moisés:

“E não cobiçarás a mulher do teu próximo; e não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo”.

Ou seja, o texto não compara a mulher do próximo com ninguém, e muito menos com o boi ou o jumento, como se vê. Limita-se a enunciar pessoas e bens que, havendo cobiça, poderiam levar a conflitos interpessoais e sociais a evitar no seio de um povo nómada e frágil, colocando em perigo a sua coesão interna.

Muito pelo contrário, parece-nos que a mulher surge dignificada no texto, visto que vem à cabeça de tudo o mais. Vem antes da casa (família), e dos bens: o campo, o escravo, a escrava, os animais e tudo o resto.

Em tom irónico, Soares lembrou passagens do Antigo e do Novo Testamento, afirmando: “Se a lição que se pode extrair do Antigo Testamento é a de que devemos evitar as mulheres, no Novo Testamento a mulher surge como objecto vergonhoso”.

Mais uma vez Mário Soares demonstra a sua ignorância dos textos bíblicos. Aquilo que o Antigo Testamento recomenda não é “evitar as mulheres”, mas sim evitar as mulheres mal intencionadas, tal como os homens. Salomão, por exemplo, escreveu um dos livros bíblicos mais belos da chamada literatura de sabedoria, o Cântico dos Cânticos, que não é mais do que um hino ao amor entre um homem (ele próprio) e uma mulher, que chega a ser de recorte erótico. É abusivo dizer que há qualquer fobia para com o sexo feminino.

E onde foi Mário Soares buscar a ideia de que “a mulher surge como objecto vergonhoso” no Novo Testamento?…

Em suma, estamos perante a evidência de puro preconceito cultural e religioso, estribado na ignorância dos textos bíblicos, e sobretudo do seu enquadramento histórico-cultural.

Já Manuela Augusto, presidente do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas (DNMS), que também participou no referido colóquio sobre “Mulheres na Religião” esteve bem ao afirmar que “ao discriminar as mulheres, séculos a fio, um grande número de religiões pregou em vão, agiu de má fé, desrespeitou o sagrado e o divino”. Inteiramente de acordo.

É natural que Mário Soares preste pouca atenção e dispense pouco respeito pelas escrituras sagradas do Cristianismo, já que pensa não passarem de “fruto da imaginação de quem as escreveu”, ele que acredita que “não foi Deus que criou o Homem, mas sim o Homem que criou Deus”.

Mário Soares pode pensar o que quiser sobre a Religião e a Fé, tem liberdade para isso, mas enquanto presidente da Comissão de Liberdade Religiosa tem o dever de respeitar quem tem fé, e de evitar abordagens levianas ao fenómeno religioso, como esta.

Ou então de fechar a boca, para não destruir a imagem positiva que temos dele e apoucar o lugar que conquistou na História.

Rev. Dr. Brissos Lino (4/12/2007)

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