Chamada para servir

Prostrar-se e beijar

A nossa fé fala de um Deus diante de quem os maiores santos tiram os sapatos, prostram-se, curvam-se, arrependem-se no pó e na cinza. Ao mesmo tempo, o cristianismo fala de um Deus que veio à Terra como um bebé, que demonstrou misericórdia para com as crianças e os fracos, que nos ensinou a chamá-lo de Aba, que amou e foi amado. Os teólogos dizem que Deus é ao mesmo tempo transcendente e imanente. Deus inspira ao mesmo tempo amor, temor e amizade.
Para a maioria dos modernos, entretanto, um sentido de temor é recebido com enorme dificuldade. Domesticamos os anjos em bonecos rechonchudos e em ornamentos de Natal, fazemos humor com São Pedro na porta do céu, suavizamos o fenómeno da Páscoa com coelhos e substituímos a reverência de pastores e homens sábios por duendes graciosos e um homem alegre vestido de vermelho.
Recentemente, a minha igreja procurou durante vários meses por um “pastor de adoração”, e desfilou uma parada de candidatos com as suas guitarras e grupos vocais. Nenhum demonstrou conhecimento de teologia e nenhum nos levou a algo como reverência. Adorar hoje significa preencher aos brados todo e qualquer silêncio.
Gosto da celebração e da alegria aparentes em muitas músicas contemporâneas, mas estranho que estejamos tentando reduzir a distância entre a criatura e o Criador, uma distância eloquentemente expressa por Job, Isaías e os salmistas. João, o discípulo que Jesus amava e que se recostou nos Seus ombros, regista no Apocalipse que tremeu quando Jesus apareceu em plena glória.
O estilo de adoração balança como um pêndulo. Søren Kierkegaard disse que procuramos cultuar como se o pastor e o coro fossem os actores, e a congregação, a audiência, quando, na verdade, Deus deveria ser a audiência, o pastor e o coro, os ajudantes e a congregação, os verdadeiros participantes. Isso suscita uma interessante questão: que tipo de música Deus prefere? O Apocalipse nos apresenta cenas de criaturas adorando a Deus através da música e da adoração.
O moralista e escritor judeu Abraham Heschel observou que “a reverência, diferentemente do medo, não nos faz recuar diante de um objecto que inspira medo, mas, ao contrário, leva-nos para perto dele”. Diz-se que Martinho Lutero orava com a reverência de quem se dirige a Deus e com a coragem de quem fala com um amigo.

Um líder de adoração, que está a provocar um crescente impacto sobre a música cristã, esforça-se para manter a tensão entre os elementos da amizade e do medo. Matt Redman, autor de várias canções e líder do grupo Soul Survivor, afirmou estar preocupado com a música de adoração que está a colocar o foco nos músicos e não em Deus. Redman e o seu pastor se atreveram a dar o passo de eliminar toda a música dos seus cultos. Depois de um período de “jejum”, ele voltou com uma nova compreensão da música. Eis o que ele disse numa entrevista. “A adoração é bem sintetizada em Efésios 5:10, que diz: ‘Aprendam a discernir o que é agradável ao Senhor.’ Quando falamos de música, precisamos pensar numa oferta que Lhe agrade, e obviamente Ele não está preocupado com música, com o estilo musical que usamos no culto. Quando derramarmos o coração com a música e com ela cingirmos a nossa vida, provavelmente estamos no coração da adoração.”

Redman continua a explorar a fronteira entre a amizade e o temor, pois a adoração autêntica inclui ambos. Essa deve ser a resposta adequada quando o Deus santo estende aos decaídos seres humanos o convite à intimidade.
No Antigo Testamento hebraico, a principal palavra para adoração significa “prostrar-se em reverência e submissão”. No Novo Testamento, a palavra grega mais comum para adoração significa “ir adiante para beijar”. Entre os dois — ou numa combinação de ambos — está nossa melhor maneira de nos aproximar de Deus.

Fonte: Philip Yancey (jornalista, teólogo e escritor), na Enfoque (Tradução de Israel Belo de Azevedo).

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