Capitalismo sem Deus

O sistema capitalista tem sido muito falado devido à actual crise na qual a economia mundial está mergulhada, já caracterizada por alguém como a pior desde a Grande Depressão dos anos vinte.
A esquerda imputa todos os males ao sistema, chamando-lhe selvagem, de modo a que suscite repugnância ao cidadão comum. Fala de tudo sacrificar em nome do deus lucro, fala dos vencimentos e prémios de gestão (?) astronómicos auferidos pelos responsáveis do descalabro, chamando a atenção para a imoralidade de tudo isto. Fala da intervenção incaracterística do poder político americano no livre curso do mercado, no sentido de permitir a privatização dos lucros, a qualquer custo e da nacionalização dos prejuízos, com o contribuinte a pagar.
A direita limita-se a condenar apenas o que falhou, de modo a evitar idêntica situação no futuro, dada a perturbação inevitável para toda a economia mundial. Fala em aperfeiçoar o sistema através de uma regulação mais interventiva e eficaz, mas sem tocar no essencial, a liberdade dos mercados. Alguma direita não deixa de mostrar o seu desconforto pela intervenção do estado norte-americano na economia, por ser contranatura, mas aceitando que, numa situação como esta, seria difícil resolver as coisas de outra forma sem elevar os prejuízos à máxima expressão para as famílias e as empresas, numa altura em que já há cidadãos americanos da chamada classe média a dormir nos carros.
Tal como a visão de Churchill sobre a Democracia (que é um sistema político óptimo, à falta de melhor), poderíamos dizer o mesmo sobre o capitalismo, já que nem a economia planificada comprovou, nem o caudilhismo latino-americano ou africano, ou qualquer outro sistema alternativo. Talvez o regime que mais deu provas foi a social-democracia de tipo nórdico, uma variante do capitalismo, com preocupações sociais por parte do estado.
Talvez estejam agora reunidas as condições para uma ampla reflexão e um acurado debate sobre o melhor sistema político-económico, que seja socialmente mais justo, mas também economicamente mais eficaz, para uma Europa e um mundo globalizado como nunca antes se viu.
A fraqueza central do capitalismo, porém, é que ele foi pensado de modo a ser exercido  tendo por base uma ética, a protestante, como explica Max Weber, e não para ser desenvolvido como adoração ao deus Mamom, o lucro a qualquer preço. Foi concebido de modo a dar espaço ao melhor do ser humano, as suas capacidades, o espírito de iniciativa, a fé num mundo melhor, a dignificação do trabalho, em oposição a um sistema de vida baseado na dependência dos poderosos, no favor e na subserviência a terceiros.
O problema é que o capitalismo começou numa sociedade de valores, onde Deus ocupava o lugar de honra, e hoje, tendo este sido chutado para fora da História e da vida dos homens, ficaram eles sós, com o seu capitalismo.
E é muito pouco, como se vê.

Brissos Lino

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One thought on “Capitalismo sem Deus

  1. É verdade, o capitalismo é um milagre do génio humano, que queria ter por base uma revolução espiritual, que foi o protestantismo. Através do mesmo, a sociedade ocidental libertou-se das garras do papado, no entanto caíu nas garras do seu próprio egoísmo, pensando que misturando o profano com o espiritual, conseguiriam uma liga duradoura. A prova está bem visível, para quem quiser ver. Nada pode ser perfeito, se não tiver a intervenção de Deus, pois é ele a única referencia de perfeição e harmonia. Enquanto o Homem continuar a pensar que é possivel ter um mundo melhor, sem que Deus intervenha materialmente, no mesmo, continuará a lutar contra moinhos de vento, como a personagem de Cervantes, D. Quixote de la Mancha.

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