Chamada para servir

Do sentido das línguas

A grandeza das “outras línguas” é sua irracionalidade. “Outras línguas” é como traduzimos a expressão do grego bíblico glossolalia. O termo foi usado por Lucas, autor do Livro dos Atos dos Apóstolos, para descrever a cena absurda experimentada pelos primeiros cristãos no, assim considerado, início da igreja. Ali, sem nenhuma causa explicável, como um acesso de loucura, porque foi assim que os circunstantes os descreveram, como embriagados, essas pessoas falaram por um instante de tempo em línguas estranhas a elas. Frases ou palavras, explica Lucas, que eram compreendidas por cada ouvinte em sua língua mátria. Estranha para quem falava, familiar apenas para o indivíduo que ouvia. Uma compreensão privada e não comunicável. Línguas estranhas.
Sabe-se que o fenômeno acompanhou, ainda que discretamente, a expansão do que chamamos cristianismo, nos registros de Lucas. A única tentativa de explicação que conhecemos no texto bíblico para o fenômeno não é o discurso de Pedro que segue a glossolalia, mas a carta paulina aos Coríntios[1], em um esforço de dar alguma racionalidade para uma igreja que ardia em afetos, a espiritualidade mais erótica e desorganizada do registro bíblico. Qual a grande explicação de Paulo ao fenômeno misterioso? Mera repetição da narrativa lucana. As línguas são estranhas. Incompreensíveis. Mas não apenas. Servem, como no dia de Pentecostes, exclusivamente à individualidade. Nada comunicam ao grupo. Nada explicam. Nem organizam. Assistemáticas. Absurdas. Mas, estranhamente, geradoras de esperança ao indivíduo.
Em um diálogo, temos também nossas línguas estranhas. São as metáforas. Elas, em si mesmas, não têm nenhuma conexão com o que se diz. Nunca são literais. São sempre provisórias. Interrompem para apontar um nível de compreensão ainda não alcançado. Jesus interrompia suas conversas com metáforas. Eram as comparações, ou parábolas. Geralmente ninguém entendia. Conforme ele mesmo tentava explicar particularmente aos discípulos: “Por essa razão eu lhes falo por parábolas: ‘Porque vendo, eles não vêem e, ouvindo, não ouvem nem entendem’. Neles se cumpre a profecia de Isaías: ” ‘Ainda que estejam sempre ouvindo, vocês nunca entenderão; ainda que estejam sempre vendo, jamais perceberão.””[2] A função da metáfora é a de indicar um mundo de compreensão radicalmente distinto daquele. Um mundo novo com vocabulário novo. Com outros sentidos. Com outros horizontes de compreensão. Língua estranha para um mundo ainda estranho.
Richard Rorty, a partir de uma leitura de Donald Davidson, fala da metáfora como um gesto brusco e tresloucado que interrompe uma conversa sensata[3]. Foi assim que as pessoas receberam a redescrição do mundo por Galileu. A Terra dos humanos não era o centro do universo. Era ela que girava em torno do Sol e, não o contrário, como todos pensavam. Foi assim que todos ouviram a redescrição de mundo do cristianismo. Todos são iguais diante de Deus, ninguém vale mais nem menos, homem e mulher, grego e bárbaro, escravo e livre. Como um soco na boca do estômago, como um gesto violento e irracional no meio de uma conversa previsível e tranqüila. Não transmite nada ao grupo, mas aponta para o radicalmente novo. Tão novo que só será melhor compreendido quando ficar velho.
É assim que vejo a glossolalia em Atos. Talvez a reedição do fenômeno em outros momentos da história, como no atual movimento pentecostal, também indiquem algo assim. Uma metáfora para o radicalmente novo. Como toda metáfora, estranha à linguagem comum. Mas essa é a sua grandeza. Seu princípio de revolução é o não ser entendida. Sua irracionalidade é a única chance de mudar radicalmente os valores e os sentidos de uma comunidade.
Em Atos, o que estava para vir era absurdamente distinto de tudo o que se conhecia. Nunca se pensou em liberdade, direitos humanos como se chegaria a pensar na esteira do pensamento cristão. Nunca se pensou em um Deus cuja força foi sua maior fraqueza: a encarnação. Cujo nome não fazia tremer: pai. Cujos filhos não teriam credo, nem raça, nem casta, nem cor. Chamados de amigos e não de servos. Livres, de tão amados, para até dar as costas às expressões religiosas de tal Deus. Uma loucura de tal ordem, que nenhuma língua sobre terra jamais falou. Nem a língua de Jesus. Só uma língua incompreensível e louca podia indicar o tamanho da revolução imaginada por Jesus.
Mas se a glossolalia foi o fenômeno absurdo que rompeu com uma racionalidade morta e perpetuadora da opressão do humano sobre o humano, que outras glossolalias poderíamos experimentar em nossa época? Um tempo em que o cristianismo literalizou suas melhores metáforas, para falar ainda com Rorty, e frustrou um mundo de gente carente por uma outra resposta? Bem, se pudéssemos responder a essa pergunta já não seria mais uma glossolalia, ou uma metáfora, seria alguma continuidade do mesmo.
Mas resta uma sugestão. Prestemos atenção aos loucos deste mundo. Àqueles que falam o que não se encaixa em nossos conceitos. Que indicam possibilidades heréticas. Redescrições blasfemas. Sonhos escandalosos. Gente com quem a maioria não concorda. Poetas. Românticos. Utópicos. Estranhos. Nesses, cuja fala atrapalha e transtorna. Tratados tantas vezes como traidores e ingratos. Dignos de piedosa preocupação. Objetos de esquisita violência e ultraje. Sócrates, Jesus, Paulo, Pelágio, Lutero, Galileu, Darwin, Gandhi, Martin Luther King. Poetas cujas metáforas só se compreendem tardiamente. Mas que convulsionam as estruturas normais e transpiram esperança e fé.
Preste atenção, alguém pode estar falando uma língua estranha perto de você. Isso que você ainda não entende pode ser a descrição de um mundo novo que você tanto deseja.

Fonte: Elienai Cabral Junior, Línguas – estranhas esperanças, Elienaijr (respeitou-se a grafia brasileira do autor).

(1) 1 Coríntios 14
(2) Mateus 13.13-14
(3) RORTY, Richard. Contingência, Ironia e Solidariedade. Martins Fontes, São Paulo, 2007. Pág. 45-52.

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Comentários a: "Do sentido das línguas" (1)

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