Chamada para servir

Chega de gritaria

Antes de mais, leia Lucas 23:1-25.

Pilatos era uma das pessoas mais sóbrias, mais lúcidas em todo aquele circo religioso que decorria há várias horas. Tentou, por três vezes, ilibar Jesus de Nazaré (Lucas 23:4, 15, 22) mas sem sucesso. Em Lucas 23:20 diz mesmo que ele queria soltar Jesus!

Não conseguiu. Lavou as mãos mas nem imagino o que esse homem e a sua mulher devem ter sofrido o resto da vida. Ela bem pediu que ele não entrasse na questão daquele justo (Mateus 27:19) mas, que fazer? O governador não podia demitir-se da sua função jurídica. Ela, que parecia ter alguma vulnerabilidade psíquica, deve ter sido perseguida por fantasmas, demónios, sonhos e pesadelos para o resto da vida.

Em Lucas 23:23 temos o desfecho: diz que a multidão instava «com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado, e os seus gritos prevaleceram».

Que multidão era esta? Deveria ser a mesma multidão que, uma semana antes, tinha gritado outra coisa: tinha dado brados de júbilo e gritado «Hossana» enquanto ele entrava em Jerusalém. Se esta multidão não era a mesma, pelo menos de uma coisa estamos certos: sabemos que a outra multidão, a da semana anterior, não estava ali, no julgamento, para clamar a favor dele.

Martin Luther King  terá dito que “o que mais preocupa não é nem o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem carácter, dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.”

E a multidão, de garganta cheia mas de cabeça vazia (não é sempre assim a multidão???), foi levada, instrumentalizada, manipulada por um poder religioso que lucrava muito em matar esse Jesus de Nazaré. E não é que os canalhas conseguiram?!

Esse mimetismo, esse contágio, essa carneirização (palavra nova mas boa… carneirização!) é um fenómeno social, grupal, que atravessa as sociedades em todas as suas estruturas, incluindo a Igreja.

Muito do que se passa hoje, nas igrejas, é pura carneirização. Gritaria que tenta ensurdecer as pessoas de modo a não permitir que elas ouçam nada mais nem mais ninguém! «Mensagens? Só as do nosso apóstolo»; «Avivamento? Só na nossa igreja»; «Sã doutrina? Só a nossa interpretação»; «Visão? Só a nossa». «Liderança nacional? Só no nosso grupo». Está aí: uma gritaria esganiçada que tenta impor, dirigir, controlar, manipular através da violência do discurso, da chantagem, da demagogia que o povo, crente e crédulo, tanto gosta e necessita. E que tão bem amplia e amplifica! Cada vez mais me convenço de que não precisamos que nos gritem nem façam gritar nem a voz nem a Palavra de Deus…precisamos, sim, de quem nos ajude a obter, a ter e a manter a «mente de Cristo».

Mas é isso que muitos líderes temem: que alguns, de entre a multidão, façam «ouvidos de mercador» e comecem antes a pensar em vez de falar; comecem a reflectir, a deduzir, a concluir, a desenvolver uma «mente sã». Pessoas que aprendem a deixar de gritar para começar a reflectir!!!

Aquela multidão gritou, clamou, urrou, uivou. Que cegueira colectiva, que desnorte generalizado, que acefalia miserável de quem se comporta como uma besta desencabrestada com muito ímpeto mas sem direcção nem orientação.

Saiam da frente, afastem-se: esse fenómeno de excitação colectiva, facilmente explicado por uma psicologia de massas, costuma fazer suscitar a brutalidade, a irracionalidade e a cilindragem de tudo e de todos os que se puserem à frente desse bando, dessa turba desnorteada. Trata-se de uma multidão de fantoches – uma fantochada – sinistramente comandados por batinas, colarinhos, fatos e gravatas de eclesiásticos que puxam os cordelinhos das marionetas que controlam, levando os seus sequazes a gritar, a praguejar, a papaguear um discurso conveniente cheio de palavras mas sem ideias. Estes, tal como aqueles, só prevalecem de uma forma: fazendo gritaria.

Essa multidão mimética salva Barrabás e crucifica Jesus; isto é, poupa os piores e sacrifica os melhores. É o paroxismo da falta de juízo, da irracionalidade! Essa multidão de sectários, de fanáticos, esse rebanho facilmente instrumentalizado e descolado da realidade, rebanho que uiva como uma matilha, arrebatado num fanatismo psicótico, é o que certos líderes religiosos mais gostam: é o povo em estado puro!

A gritaria está aí em todo o lado: e tudo o que não se conforma a essa gritaria tem de ser silenciado. Vocês não ouvem??? O que mais se ouve em certas igrejas, convenções e conclaves é «crucifica-o, crucifica-o». E dizem-no uns dos outros e uns aos outros!!!

E o pior de tudo é a ressaca! Quando essa multidão percebe que bateu no fundo, que foi enganada, que foi usada, que foi explorada, que foi utilizada…então vem o desânimo, o desalento, a desilusão, o desencanto, a descrença.

No que à fé diz respeito, há dois tipos de crentes: os que são e os que já foram. O segundo grupo é, infelizmente, bem maior que o primeiro.

Que fazer? Necessitamos criar uma igreja que seja uma comunidade de silêncio: pouca gritaria, pouco barulho, mas com muita vida interior. Um ambiente de liberdade, de reflexão, de meditação, de devoção, numa atmosfera saudável cheia do sussurro de Deus. Chega-nos o sussurro – a voz mansa e delicada de Deus!

Fonte: Luís Melancia.

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