Chamada para servir

A estranheza da normalidade

O Papa Francisco insiste em ser um homem normal.

Conta-se que terá protagonizado um episódio curioso nos primeiros dias de pontificado. «De manhã muito cedo, o recém-eleito Papa Francisco abriu a porta do quarto que ocupa na Casa de Santa Marta e foi surpreendido pela presença de um guarda suíço, em sentido, no corredor. Perguntou-lhe o que fazia ali e se tinha passado a noite acordado. “Sim”, respondeu o guarda. “De pé?”, quis saber o Papa. “Um colega rendeu-me por uns minutos.” Francisco ficou incrédulo: “E não está cansado?” “É o meu dever, Sua Santidade, para sua segurança.”

O Papa desapareceu por breves instantes e voltou com uma cadeira na mão. “Ao menos sente-se e descanse”, pediu. “Perdoe-me, mas não posso aceitar. As regras não o permitem.” “As regras?”, estranhou Bergoglio. “São ordens do meu comandante, Sua Santidade.” “Ah, sim?! Pois eu sou o Papa, e peço-lhe que se sente”, disse Francisco, antes de regressar de novo aos aposentos, onde preparou um croissant com doce para lhe oferecer. “Bom apetite, irmão!”, despediu-se.»

A revista Sábado explica que nos primeiros tempos, «quase todos estavam à espera do momento em que a informalidade do novo Papa sucumbiria ao peso de séculos de tradições da Santa Sé. Certo é que nove meses depois de ser eleito, a 13 de Março, Francisco continua decidido a não ocupar o Palácio Apostólico, a viajar num simples Ford Focus azul-metalizado, e a levar uma escolta mínima e discreta, sem cortar o trânsito, quando sai do Vaticano. Os acessórios que recusou na noite em que o escolheram com um gentil “por agora não” mantêm-se guardados: usa os mesmos sapatos pretos de sempre, a cruz que trouxe de Buenos Aires e uma sotaina branca tão sóbria quanto possível. Francisco insiste em ser um homem normal.»

Compreende-se a admiração por este tipo de comportamento inesperado do chefe da igreja católica apostólica-romana, dado o peso da tradição e a prática de séculos a fio.

Recordo, a propósito, um episódio que vivi. Num encontro interconfessional ocorrido na casa episcopal de Viseu, creio que nos finais dos anos oitenta.

O então bispo D. António Monteiro, ao mostrar-nos as instalações conduziu-nos ao salão principal, onde era hábito receber as visitas, e lá estava uma plataforma mais elevada com um trono onde o bispo da diocese habitualmente se sentava para receber as visitas, em plano superior. E dizia D. António Monteiro que ele nunca tinha utilizado tal expediente pois não lhe fazia qualquer sentido sentar num trono, e muito menos em nível mais elevado do que os seus convidados. Invocava, quase em jeito de justificação, a sua filiação franciscana.

Mas se relativizarmos a tradição e nos cingirmos à pureza do Evangelho, quer no exemplo de Jesus quer dos apóstolos nunca vimos outra coisa que não normalidade, do ponto de vista humano. Pelo contrário, quando Cornélio se prostrou aos pés de Pedro e o adorou, este rapidamente o repreendeu dizendo: “Levanta-te que eu também sou homem” (Actos 10:26), não fosse ele próprio vir a tornar-se objecto de culto, sendo apenas um simples servo do Senhor.

E assim temos a inversão dos termos. O que é normal (que devia ser normal) é visto como anormalidade, e o que é intrinsecamente anormal reveste-se de normalidade.

Eu sei que o Papa é um chefe de estado. Mas convenhamos, só o é por razões políticas, pois o Vaticano – aquela meia dúzia de quilómetros quadrados – não é um país, no sentido corrente do termo, mas apenas a sede mundial de uma igreja, o que já de si se reveste da maior anormalidade histórica, apenas consumada no tempo do ditador Mussolini.

Mas porque razão é alimentado este tipo de anormalidade? Pela mesma razão porque ainda subsistem as monarquias europeias. O povo gosta de pompa e circunstância, de espectáculo, de mitos, deglamour, de sonho. Só que, no caso vertente, o acto de idolatrar o chefe dos católicos assume contornos mais sérios, do ponto de vista teológico e doutrinário.

É que as Escrituras só nos autorizam a prestar culto a Deus e a adorá-lo a Ele. E todos os seres humanos de fé cristã são seus servos, sem excepção. Incluindo o Papa.

Fonte: Ovelha Perdida.

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