Chamada para servir

 

magnificat

 

“O meu espírito se alegra em Deus meu Salvador.” (Lucas 1:47).

 

O Magnificat é realmente um hino de louvor magnífico, saído espontaneamente da boca de Maria, face à visita do anjo da Anunciação.

Mas a mesma atitude é semeada nos homens e mulheres de fé, no Antigo Israel: “Alegrai-vos, ó justos, no Senhor, e dai louvores à memória da sua santidade” (Salmo 97:12). “Exultai no Senhor toda a terra; exclamai e alegrai-vos de prazer, e cantai louvores” (Salmo 98:4). “Gloriai-vos no seu santo nome; alegre-se o coração dos que buscam ao Senhor” (1 Crónicas 16:10).

Por aqui se depreende que a causa directa da canção de Maria não deveria ser a única mola que havia de fazer suscitar tais louvores nos filhos de Israel, mas antes uma atitude de reconhecimento e admiração permanente pelo seu Deus.

Por outro lado, já em tempos de Nova Aliança, o apóstolo S. Paulo, convidava os crentes de Filipos à expressão de uma alegria exaltante mas sempre renovada: “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos” (Filipenses 4:4).

Mas quer isto dizer que o cristão deve mascarar os problemas com que se defronta, as suas angústias e temores, receios e tristezas? Claro que não. Isso não passaria de fingimento e hipocrisia. Então como é que poderíamos dar cumprimento ao mandamento bíblico de “chorar com os que choram” se todos rissem e escondessem as suas lágrimas inevitáveis?

Isto significa simplesmente que o pano de fundo da pessoa que tem uma fé plantada na Palavra de Deus é de louvor contínuo, à semelhança do que apontava simbolicamente o altar de incenso no tabernáculo do deserto e depois no Templo de Jerusalém.

Há quem pretenda mascarar os seus sentimentos através de uma representação teatral a que chama erradamente fé, por obra e graça de uma confissão do que não sente mas gostaria de sentir. Isso não é fé, é tolice.

Nos últimos tempos, porém, tem surgido uma outra forma de fugir à realidade, muito inspirada por uma certa psicologia de trazer por casa, vulgo auto-ajuda. Se a pessoa falar sempre positivo, uma força mágica qualquer vai fazer com que o negativo desapareça. Só que a coisa não funciona assim. Esse é o caminho mais curto para a alienação pessoal e a fuga a uma dimensão social que é inseparável do cristianismo bíblico ou evangelho integral, como alguns chamam.

Se há coisa o Evangelho nos chama a ser é genuínos, autênticos. Até porque se não formos sinceros para com Deus nunca alcançaremos a salvação.

É por isso que não entendo nem posso aceitar a visão dos que defendem a dissimulação dos sentimentos em nome de uma espiritualidade à prova de bala, o acto de proferir palavras com uma carga mágica, com vista a alterar a situação vivida, ou uma prática do confinamento a um universo protegido, fechado, como se estivéssemos sozinhos neste mundo de Deus, o oikos ao qual fomos enviados por Jesus Cristo.

Pelo contrário. Quem conhece as Escrituras sabe que Deus gosta de se ocupar dos sofredores. No Sermão do Monte Jesus chegou mesmo a chamar felizes (“bem-aventurados”) aos que choram.

E David, o suave salmista de Israel, já declarava que o choro pode até ser persistente: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmo 30:5). Curiosamente, na mesma canção onde, no verso imediatamente precedente,exorta a cantar ao Senhor…

Vamos deixar-nos de teorias e de fingimentos. O Deus que nos ama de forma sacrificial está connosco na alegria e no sofrimento. Sempre.

B. L. 

 

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