Chamada para servir

Um jornal nacional publicou recentemente uma ampla reportagem, como resultado da investigação jornalística realizada durante dois meses, por observação directa, de um grupo neopentecostal no nosso país, dirigido por um brasileiro. Esse grupo – tal como muitos outros – vai-se disfarçando como pode de “evangélico”, mas, pelos vistos, sem compromisso com a tradição e a doutrina comum ao evangelicalismo.

O que define uma seita religiosa de inspiração cristã? O que a distingue de uma igreja bíblica? Vários factores, mas sublinhamos dois: o seu corpo de doutrina não ser reconhecível no quadro da fé protestante/reformada ou evangélica, por um lado, e por outro a falta de transparência e seriedade da sua organização interna, em especial a inexistência de fiscalização das contas por parte dos membros não ligados à liderança, ou a concentração de bens da comunidade em nome do líder.

Quando as doutrinas são falsas ou heréticas, isto é, quando não dispõem de suporte bíblico, o grupo em apreço revela uma configuração de seita.

Algumas práticas anti-bíblicas

Exigir a Deus uma graça. “Eu exijo, em nome de Jesus, que você recupere a visão do seu olho direito!”

Nada na Palavra de Deus nos autoriza a “exigir” qualquer coisa a Deus. Nenhuma promessa de bênção ou cura permite a formulação duma exigência de resposta divina. Tal expediente é absurdo, além de revelar uma presunção espiritual inaudita. Ninguém pode ordenar o que quer que seja ao Deus Omnipotente e Todo-Poderoso, Criador dos céus e da terra. O homem não pode tomar o lugar que só a Deus pertence.

Para dar lugar a este tipo de doutrina teriam então que se retirar da Bíblia as figuras de Job (que nos ensina sobre o sofrimento e como lidar com ele) e do apóstolo Paulo (com o seu “espinho na carne”), entre muitos outros casos.

Considerar a origem demoníaca de todas as doenças. “Onde estiver um demónio de enfermidade, que saia agora. Pode gritar!”

Trata-se de uma doutrina de homens. Não é este o ensino bíblico em termos de doença, mas sim a excepção, da qual não se pode fazer regra. Tal postura apenas pretende desencadear respostas de pico emocional na assistência, de modo a confundir as mesmas com a manifestação do Espírito Santo.

Entre os judeus, nos dias de Jesus, havia o mito de que as doenças seriam castigo divino pelo pecado do próprio ou de seus pais, mas Jesus, quando confrontado com esta teoria, desfê-la por completo: “E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus” (João 9:1-3).

Da mesma forma, as doenças são resultado de um corpo humano, mortal, sujeito à degradação, envelhecimento e morte, e não resultado de uma opressão demoníaca, a não ser em casos pontuais: “Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade” (1 Coríntios 15:53).

Promover a fanfarronice. “Sou um homem imbatível, Até o diabo foge quando me vê.”

Nem Jesus Cristo cedeu a tal bazófia. Pelo contrário, quando foi tentado por Satanás no deserto defendeu-se sempre com as Escrituras. O Inimigo não tem medo de um pateta qualquer só porque se arma em fanfarrão. Nem qualquer apóstolo, discípulo ou líder da Igreja Primitiva proferiu alguma vez tal barbaridade.

Manifestar triunfalismo e lançar falsas promessas. “A partir de agora é só vitórias”.

Jesus ensinou aos discípulos que, no mundo passariam por aflições, encorajando-os à fé n’Ele para as vencerem. Abraão fez diversas asneiras na sua vida, Moisés matou um egípcio e tentou resistir até onde conseguiu à chamada de Deus no Monte Horebe, Elias deprimiu, Pedro fraquejou diversas vezes e negou o Mestre, Tomé duvidou, Paulo recriminava-se a si mesmo por não conseguir fazer o que era certo, Pedro e Paulo desentenderam-se, tal como Paulo e João Marcos.

As estórias da carochinha são do domínio da ficção infantil, não da vida real.

Defender a discriminação de pessoas na eternidade. “O vosso lugar no céu é proporcional ao que dão (financeiramente) à igreja em vida”.

O Deus que garante não fazer “acepção de pessoas” na terra e que condena quem o faz, faria Ele mesmo essa discriminação no céu?: “Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas” (Romanos 2:11).

E onde está escrito que o galardão celestial está associado a esmolas, ofertas e dízimos? E qual será então a motivação do crente que dá, senão ceder à tentação da ambição e ganância nesse negócio, em que Deus se deixa comprar pelo nível de sacrifício financeiro do fiel? Será o Deus da Bíblia assim tão interesseiro e ganancioso, ou estarão os que tal afirmam a ver-se ao espelho?

Apelar às ambições pessoais. “Todo o crente é chamado para ser líder.”

Não. Somos todos chamados para ser santos (1 Coríntios 1:2), testemunhas (Actos 1:8) e servos (1 Coríntios 7:22). Líderes são só os que Deus chama para essa função: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus” (Romanos 1:1). E não há curso, escola, indicação ou nomeação nenhuma que faça líder espiritual de alguém que não tem uma genuína vocação de Deus para o ministério: “E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão” (Hebreus 5:4).

Aquela afirmação parece pretender ser uma espécie de cenoura que atrai os ambiciosos e os que necessitam muito de reconhecimento pessoal, por razões de baixa autoestima, além de manter em funcionamento uma lucrativa máquina de venda de manuais para os cursos que lhes virão a dar os ambicionados títulos. Ou de venda de títulos, por via indirecta. Trata-se de uma absoluta perversão do Evangelho e da humildade cristã: “O maior dentre vós será vosso servo” (Mateus 23:11).

Proibições idiotas. Neste grupo é proibido beber café, por ser considerado um vício. Jesus de Nazaré ensinou que não é o que entra na boca que contamina o homem: “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem” (Mateus 15:11).

Além disso, as proibições são contrárias ao primado da fé cristã, que se baseia não no que se faz ou deixa de fazer, mas no que se é. Não no “fazer” ou “não fazer”, mas no “ser”.

Quando, além de doutrinas falsas ou heréticas, se juntam práticas administrativas suspeitas, pela sua falta de transparência, o grupo em apreço revela mais uma vez a sua configuração de seita.

Ausência de fiscalização financeira. Sempre que um grupo não disponha de uma clara escrituração de contas, actualizada, e que seja analisada regularmente por uma comissão de membros sem ligações directas (familiares ou outras) com a liderança do mesmo, pode dizer-se que não observa princípios de seriedade e transparência.

Manter bens e contratos da comunidade em nome próprio. Sempre que um grupo funcione sem contas bancárias formais, em nome da instituição, cujo movimento obrigue a mais do que uma assinatura, pode dizer-se que não observa princípios de seriedade e transparência.

Quando os arrendamentos de instalações para serviço religioso e respectivos contratos de fornecimento de energia eléctrica, água, gás ou outros são celebrados em nome do líder do grupo, pode dizer-se que não se observam princípios de seriedade e transparência.

Conclusão

Estes grupos insinuam-se nos meios evangélicos tentando ganhar credibilidade, mas acabam por revelar a sua verdadeira face de seitas religiosas de inspiração cristã. Não podem ser considerados igrejas bíblicas, quer pelas aberrações doutrinárias e práticas que evidenciam, quer pelas irregularidades administrativas. Não merecem crédito.

O testemunho de Cristo sobre eles é este: “Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mateus 7:20-23).

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