Chamada para servir

 

 

 

O livro de Actos dos Apóstolos relata-nos a rica experiência de Saulo em Damasco, logo depois do encontro dramático com o Cristo Ressuscitado, quando ia a caminho da Síria, “respirando ameaças e mortes” contra os do Caminho (Actos 9:1).

Lucas diz que o futuro apóstolo “esteve três dias sem ver, e não comeu nem bebeu” (v 9). Este despojamento não parece constituir, sequer, o facto mais relevante daquela experiência. Saulo quis concentrar-se no que estava agora a ver, a ouvir e a viver, a ponto de nem ter tempo nem disponibilidade interior para fazer uma pausa de modo a alimentar-se.

O que é relevante é a experiência espiritual, mística e certamente inefável, que constituiu a revelação divina a um homem que tinha todas as condições para a receber, já que era sincero e zeloso mas que, apesar de andar enganado (cego) não era estúpido. De facto, no momento do encontro na estrada para Damasco, Saulo reconheceu imediatamente que era Deus que falava com ele: “E ele, tremendo e atónito, disse: Senhor, que queres que eu faça? (v 6).

Depois de Saulo ter aprendido humildade e ganho experiência da nova vida na comunidade cristã de Antioquia, foi então enviado como missionário ao mundo: “E na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé e Simeão chamado Níger, e Lúcio, cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes o tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram” (13:1-3).

O facto é que Saulo tinha transferido de imediato o seu zelo judaico em zelo pela fé cristã, agindo de forma um pouco precipitada. Correu fora de tempo: “Saulo, porém, se esforçava muito mais, e confundia os judeus que habitavam em Damasco, provando que aquele era o Cristo. E, tendo passado muitos dias, os judeus tomaram conselho entre si para o matar (…) E falava ousadamente no nome do Senhor Jesus. Falava e disputava também contra os gregos, mas eles procuravam matá-lo” (13:22,23,24).

Mais tarde, já em Chipre, Paulo faz passar o mágico Elimas por uma experiência semelhante à sua: “E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre. E, chegados a Salamina, anunciavam a palavra de Deus nas sinagogas dos judeus; e tinham também a João como cooperador. E, havendo atravessado a ilha até Pafos, acharam um certo judeu mágico, falso profeta, chamado Barjesus, O qual estava com o procônsul Sérgio Paulo, homem prudente. Este, chamando a si Barnabé e Saulo, procurava muito ouvir a palavra de Deus. Mas resistia-lhes Elimas, o encantador (porque assim se interpreta o seu nome), procurando apartar da fé o procônsul. Todavia Saulo, que também se chama Paulo, cheio do Espírito Santo, e fixando os olhos nele, Disse: Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perturbar os retos caminhos do Senhor? Eis aí, pois, agora contra ti a mão do Senhor, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo. E no mesmo instante a escuridão e as trevas caíram sobre ele e, andando à roda, buscava a quem o guiasse pela mão. Então o procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado da doutrina do Senhor” (13:4-12).

É curioso que tanto Saulo como Elimas passaram pela experiência temporária da perda de visão. Para o primeiro ela permitiu uma profunda revelação espiritual, mas no caso do segundo não terá resultado em nada. Tenho para mim que a diferença se deve apenas a um factor essencial: a atitude.

Saulo entrou naquele período de cegueira completamente rendido e disponível para o Cristo, a quem chamou Senhor, no encontro do caminho. Já Elimas entrou nessa condição em atitude de rebeldia, visto que resistia ao testemunho de Paulo, tentado boicotar o trabalho de evangelização “procurando apartar da fé o procônsul”, munido de engano e malícia, como esclarece Lucas.

De resto, observando a reacção de ambos face à cegueira súbita, verifica-se facilmente que no caso de Saulo há aceitação, calma e sujeição. Já no caso de Elimas vê-se que fica desnorteado, temeroso e nervoso: “andando à roda, buscava a quem o guiasse pela mão”.

Creio que esta diferença de reacções diz tudo. Quando estamos face a face com Deus, podemos confiar n’Aquele a quem até o vento e o mar obedecem.

 

José Brissos-Lino

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