Da atitude conformista

 

A partir da ideia corrente em diversos meios religiosos, de que tudo o que está a acontecer ultimamente está previsto nas Escrituras, passar a afunilar nesse terreno quase todo o discurso e praxis, é também uma forma sub-reptícia de não tomar partido pela verdade e justiça, ou seja, de a Igreja não falar nem se mover profeticamente neste mundo (oikos).

Mas também é uma forma manhosa de tomar o partido dos mais fortes. A Bíblia diz que “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4:17), o chamado pecado por omissão. O pastor Martin Luther King Jr. dizia: “O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem carácter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons.”

Se eu vir alguém com sede e o deixar morrer desidratado – enquanto culpo este mundo que está no “maligno” – acabei de pecar, de falhar o alvo. E o meu alvo natural seria dar um copo de água ao meu próximo, e não propriamente deixar-me ficar pelas meras apreciações e interpretações escatológicas. O sedento quer lá saber se a causa da sua sede estava prevista ou não nos textos bíblicos. Quer é beber água!…

Esta atitude conformista tem sido influenciada, ao longo da História, por razões conjunturais. Sempre que a Igreja foi aliada do poder político, pregou a submissão e justificou a exploração dos pobres pelos poderosos, e dos fracos pelos fortes, com essa coisa a que chamou “a vontade de Deus”, mas em flagrante contradição com o contexto geral das Escrituras, tanto no Antigo como no Novo Testamentos. Por outro lado, quando a Igreja era minoritária ou vivia sem os favores do poder, evitou fazer ondas, por receio de sofrer represálias ou mesmo perseguição. Duma forma ou de outra a Igreja foi vivendo e comportando-se na sociedade sempre em função do poder, ou por se sentir atraída e acolhida pelos círculos palacianos ou excluídas dos mesmos.

A atitude conformista estriba-se numa teologia escapista e cai no mesmo erro que os apóstolos combateram em meados do I século, no mundo gentio, quando alguns convertidos à fé cristã deixaram de trabalhar para aguardar a Parousia (Segunda Vinda de Cristo). A ponto de o apóstolo Paulo sentenciar: “Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (2 Tessalonicenses 3:10). No caso presente o absentismo não é profissional ou laboral mas testemunhal e profético.

O facto de aguardar a Parousia dessa forma inerte não compagina com a oração sacerdotal de Jesus de Nazaré (João 17) quando disse ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (João 17:15). É isto que os conformistas ainda não entenderam. Não têm que sair do mundo (oikos) mas sim que evitar a prática do mal que o caracteriza. E ficar quieto e calado quando se pode fazer alguma coisa é ser comparticipante do mal. Além disso, ao “saírem” do mundo os conformistas perdem toda a capacidade de ser sal e luz, que é exactamente a sua função neste mesmo mundo.

Dir-se-á que a causa primeira da atitude conformista é o sentido de escala ou o chamado “complexo de minoria”, que facilita uma postura defensiva num mundo hostil à fé. Não nos parece. É que os cristãos verdadeiramente comprometidos com a sua fé são e sempre foram uma minoria, um remanescente, um pequeno “rebanho”: “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” (Lucas 12:32). O facto de nos sentirmos impotentes para mudar o mundo não justifica que optemos por não mexer uma palha.

Um pequeno gesto nosso pode fazer a diferença na vida de uma pessoa, pelo menos. E se assim for já mudámos alguma coisa no mundo. Não só porque “o que ganha almas é sábio” (Provérbios 11:30b), mas também porque uma alma vale mais do que o mundo inteiro “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma?” (Mateus 16:26).

Quando a casa está a arder, o conformista bem pode gritar que já se previa tal desgraça, que já se estava à espera. Não vai adiantar nada. O que há a fazer é arregaçar as mangas e apagar o fogo, de modo a salvar vidas e bens. Por alguma razão Kennedy dizia que “o conformismo é carcereiro da liberdade e o inimigo do crescimento”.

Nem quero pensar que nesta matéria haja lugar para a política da terra queimada, isto é, quanto pior, melhor. Mas é exactamente isso que parece quando se ouvem alguns cristãos falar dos “últimos tempos”. Até: “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (João 3:17).

José Brissos-Lino

 

 

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