De fé em fé

 

Recordar a Reforma Protestante celebrar a aproximação do povo às Escrituras, e por isso, ao próprio Jesus, mas é também recordar que esse caminho foi desvirtuado ao se cair num individualismo acérrimo. Hoje, passados mais de 500 anos é tempo de agradecer a Deus pela forma como Ele usou homens e mulheres para que o seu povo o conhecesse de forma mais profunda, mas também clamar pela sua orientação de forma a que o seu povo passe a viver como povo redimido.

João Calvino, como muitos outros reformadores, dizia que se podia inferir quem era ou não salvo pela forma como as pessoas viviam, dentro e fora da Igreja, mas, em última análise, era Deus que sabia quem seria salvo e quem não seria.  Ao contrário da Igreja romana, os reformadores defendiam uma fé pessoal. Essa nova ordem exigia uma relação pessoal entre o indivíduo e Deus.

Nesse novo contexto relacional com Deus, a Reforma contribuiu para o desenvolvimento do espírito capitalista, pilar da economia moderna. Como defendeu o sociólogo alemão Max Weber em The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism (1904), o capitalismo já existia na Europa antes da Reforma, bastava olhar para a actividade dos banqueiros de então. Porém, era uma sistema limitado pelo contexto religioso e socio-cultural. O Protestantismo veio tornar esse modelo económico muito mais dinâmico.  Uma vez que defendia a obrigatoriedade de o cristão ser um instrumento nas mãos de Deus na construção de um mundo mais próspero, acabou por se tornar um pilar da modernização.

Este espirito nasceu da interpretação de que o ser humano devia continuar a obra criadora de Deus através do trabalho.

Porém, se essa visão possibilitou que se iniciasse um desenvolvimento social, politico e económico a uma velocidade que não era conhecida, também foi catalisador da formação de uma sociedade que na sua consciência individual, dispensou Deus.

Os deuses da sociedade deixaram de ser imagens fabricadas pelas mãos de homens e mulheres. Esses deuses passaram a ser conceitos que prevaleceram sobre a própria definição de ‘ser’ Deus. Deixou de haver uma estátua de Mamon, mas o dinheiro ocupou o lugar de um deus nos corações; deixou de haver estátuas de Ares, mas a guerra continuou a proliferar pelo mundo; deixou de haver imagens de Atenas mas o conhecimento humano sobrepôs-se à vontade de Deus.

Porém, hoje, a dificuldade não é ver como a cultura foi influenciada pela Reforma. Desde as artes até à economia e política é fácil de ver a sua influência. A dificuldade é saber porque é que a Reforma hoje encontra uma barreira na cultura. temo dizer que a culpa passa muito pela forma como nós cristalizamos a nossa fé, deixando de sentir e chorar por uma cultura que se encontra nas nossas ruas. Como Igreja deixámos de levar pessoas a Cristo, ficando satisfeitos com os números que podemos apresentar. Isso é tudo aquilo pelo qual os reformadores nunca lutaram. Diferenciamos secular de profano e depois não queremos que a cultura de hoje o faça de igual modo. Basta que te perguntes. Como vives a tua fé à segunda-feira?

Os Censos de 2010 em Portugal diziam que há 77.000 evangélicos em Portugal e na Grande Lisboa esse número ronda os 35.000. Na Grande Lisboa há 1.600 milhões de católicos, sendo que, segundo um estudo da Universidade Católica Portuguesa, somente 20% são praticantes, ou seja, na grande Lisboa há apenas 350.000 cristãos comprometidos. Quando atravesso o rio de barco, do Montijo para Lisboa, e olho a imensidão populacional desta cidade, compreendo que podíamos fazer muito mais se compreendêssemos que a reforma não é sinónimo de individualidade, seja de consciência ou de salvação, mas é sinónimo de vivência real da fé em Cristo.

Teimamos em achar que a nossa salvação tem que ver com a nossa moral e não compreendemos que é pura graça de Deus.

Hoje as Igrejas preocupam-se muito com a sua identidade, mas esquecem-se que a identidade principal do cristão nasce da filiação ao Pai. Nós somos filhos de Deus e a nossa missão não é ir pelo mundo e enfiarmo-nos dentro de uma Igreja, é irmos pelo mundo, ensinando e baptizando em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Quando passamos a estudar a Reforma meramente por motivos históricos, passamos a olhar para o que se passou no século XVI como um antiquário olha, por exemplo, para uma cadeira. O antiquário não está interessado em saber se ela é confortável, se dá para nos sentarmos bem nela, se ela cumpre adequadamente a função de cadeira. Basicamente a preocupação resume-se à sua idade, ao seu estado de conservação e, principalmente, a quem pertenceu. Isto determinará o valor daquele objeto para o antiquário e, consequentemente, o seu estudo é motivado por essa visão.

Esse é também o desafio de hoje: uma coisa é olhar para trás e louvar homens e mulheres famosos, mas isso pode ser pura hipocrisia se não aceitamos, no presente, aqueles que pregam a mensagem de Lutero,  de Calvino e de tantos outros. São as Igrejas protestantes de hoje verdadeiras filhas da Reforma, honrando esses grandes profetas de Deus?

Mas existe uma forma correta de relembrar o passado que podemos retirar do que acabámos de dizer, que a Bíblia em Hebreus 13.7-8, nos esclarece:

Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram. Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre.

A maneira correta de relembrar a Reforma é, portanto, verificar a mensagem, a Palavra de Deus, como foi proclamada, e isso não apenas por um interesse histórico de “antiquário,” mas para que possamos imitar a fé demonstrada pelos reformadores. Devemos observar aqueles eventos e aqueles homens, para que possamos aprender deles e seguir o seu exemplo, discernindo a sua mensagem e aplicando-a aos nossos dias.

Claro que pessoas como Wicliffe, Huss, Lutero, Calvino, Zwinglio, Knox e tantos outros influenciaram fortemente a mente dos protestantes, e também dos católicos romanos, há que recordar que a resposta da Igreja católica ao movimento reformador protestante foi a contra-reforma da Igreja de Roma. Mas nada do que disseram teria sido propagado, ou sequer aceite, se estes homens não tivessem vivido à luz daquilo que anunciavam. Eles criam e viviam segundo a fé que proclamavam.

Já imaginaram quando as regras institucionais forem menos importantes do que o desejo de intimidade com Jesus? Estarmos tão perto de Jesus que podemos sentir o calor do seu corpo, o cuidado dos seus gestos, a correção que nasce da sua preocupação. Já pegaram numa criança ao colo e a abraçaram? Já imaginaram quando nós nos sentirmos essas crianças nos braços de Jesus… completamente amados, completamente aceites… Só nesse momento poderemos crescer e nos tornarmos adultos sem complexos ou desejos de impor a nossa identidade ao próximo. A identidade que a Reforma nos recorda que temos de expressar é a centralidade de Jesus, fundada na graça imerecida de Deus que nos sustenta e que nos leva a dar glória somente a Deus. Sejamos Presbiterianos, congregacionais, luteranos, metodistas, ortodoxos, católicos, assembleianos… antes disso tudo, somos filhos de Deus.

Talvez seja bom recordar que Deus não nos criou para sermos denominacionais, mas também não nos criou para não o sermos. Romanos 8:29 recorda que

aqueles que Deus de antemão conheceu também os predestinou para serem semelhantes ao seu Filho.

Wicliffe, Huss, Lutero, Calvino, Zwinglio, Knox e tantos outros foram excelentes teólogos, como o foram, Mestre Eckhart, Francisco de Assis, Tomás de Aquino, von Balthasar; ou Gregório de Nissa, Policarpo de Esmirna, Irineu de Lyon, Origenes, João Crisóstomo, Cipriano de Cartago, entre tantos outros. Mas o que ele fizeram foi viver segundo a fé que Deus lhe colocou no coração.

No dia em que procurarmos sermos semelhantes ao Filho de Deus, tudo o demais se torna secundário.

O desafio é grande, mas somente assim poderemos ser transformados e andar de fé em fé.

A Deus seja dada a honra e a glória, agora e para sempre.

 

Fonte: Luís de Matos, sentado a teus pés.